Bom industrial X Mau artesanal

Quando falamos sobre o que é um gelato falamos muito sobre artesanalidade (mais ainda neste artigo), e sobre artimanhas da indústria para tentar se vender como um produto artesanal. Mas algo precisa ser explicitado, artesanal não é necessariamente sinônimo de qualidade (ou saudabilidade), nem há nada de inerentemente ruim em um produto industrial.

Não, nem todo sorvete industrial vai aditivos e gordura hidrogenada, como há sim produtos feitos à mão, mas sem nenhum cuidado nas escolhas de seus ingredientes, ou mesmo simplesmente ruins para o paladar. Então no final o que importa? Exatamente isso: um alimento será tão bom quanto os ingredientes usados em seu processo.

Hoje em dia, pouco sabemos do quê vai no que comemos, e exatamente por isso confiamos nos claims dos rótulos – “natural”, “artesanal”, “orgânico” e por aí vai. Quando passamos a procurar valor nos termos da gastronomia e não no alimento em si, abrimos as portas para que eles percam seu sentido original. E esse maniqueísmo faz com que sorvetes industriais de qualidade queiram mascarar sua produção, e às vezes até se passar por artesanal, e quem perde nessa falta de transparência somos nós. Aqui no Brasil, e fora há vários casos para exemplificar.

Na Itália há uma famosa rede de gelateria chamada Grom. Fundada em Torino, em 2003, a marca originalmente produzia um gelato artesanal. Hoje com lojas por toda Itália, e fora dela — New York, Paris e Tokyo —, a rede optou pela expansão sobre a artesanalidade. Nos primeiros passos deste desenvolvimento ela mantinha seu slogan Grom | Gelato Artigianale, até que os próprios italianos se incomodaram com essa apreensão solta do termo, e a marca mudou para ‘gelato contadino’ (sorvete camponês), e em seguida para ‘il gelato come una volta’ (‘o sorvete como era antes’). Quem já provou a grom sabe que é um sorvete muito gostoso e de qualidade, mas dizer que seria um gelato artesanal, seria ir muito além dos fatos.

Outro exemplo similar é a Amorino. Criada em 2002, em Paris, por 2 irmãos italianos, hoje a marca alcançou escala global. A grande parte de seus ingredientes são produtos naturais e inclusive orgânicos, mas não se trata mais de uma produção artesanal.

Adota-se o termo ‘industrial’, pois sabe-se que ele possui um valor agregado. Ele intui uma história de dedicação e autoria, que exige a verdadeira artesanalidade. Não é fácil ser artesão, e muito menos ainda fazer um produto artesanal de qualidade. Necessita tempo, conhecimento e experiência. Por isso mesmo, nem toda produção poderia ser artesanal — e quanto a isso está tudo bem, há valor na produção artesanal, como na industrial; a questão está na transparência ou na falta dela: em se consumir aquilo que pensa se estar comprando ou não.  

Sim, em parte é um problema de nomenclatura — e gosto não se discute, se obedece — mas talvez seja a hora de nos pautarmos menos em rótulos e claims e mais no alimento de fato — nos ingredientes e no processo. E se usar os termos devidamente não dá ao produto um necessário sinônimo e qualidade, dá o devido reconhecimento ao trabalho do artesão.

Imagem de capa: Michael Indresano Photography

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